Thursday, setembro 18, 2008
Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, num momento
De lágrimas de honesta piedade,
Lágrimas de imortal contentamento.
Sunday, agosto 10, 2008
Por Paulo Roberto Gaefke
Deixe-se levar pelo otimismo,
pela certeza de dias melhores,

e não se espante se conquistar algo novo,

nem fique com cara de bobo diante da vitória.

Os otimistas seguem conquistando até dormindo,
é um código de honra do Universo:

"tudo conspira a favor dos que confiam
",

por isso, segue trabalhando,

ainda que em busca de um nnovo trabalho,

ame muito, segue amando, ainda que em busca de um novo amor.
tenha paciência com as suas faltas,

para poder desculpar as dos outros,

perdoe-se para seguir perdoando.


Só não deixe de sorrir,

não se deixe contaminar pelos pessimistas,

nem seja você o que lcarrega a notícia ruim.

Descarte as más notícias, observe o campo,

onde o trigo cresce mesmo misturado ao joio,

sabe que lá na frente, a foice vai cortar o que não presta,

e ele vai reinar absoluto,
ainda que seja para ir para um moinho,
mas é assim, com o peso dessa dor,
que se faz o milagre do pão.


Você é o maior milagre de Deus,

ainda que esteja no moinho, sofrendo dores,

você está sendo refinado, purificado,

crescendo e melhorando a cada dia,
pão da paz, pão da vida que habita em você.
Não deixe de acreditar, sorrir e seguir adiante,

o melhor está apenas por começar...
Saturday, junho 14, 2008
Julho de 1957. Aquilino publicara A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES, o «teatro de virtudes e de algumas malfeitorias», tal como definia este romance histórico. A unanimidade foi quase total, era no dizer dos entendidos, um volume excepcional, obra-prima do seu génio de prosa. Salvo um pequeno sector de recalcitrantes, para quem o mestre não dispunha «de sólidos poderes de captação da diversidade da vida humana», somente uma voz magoada ecoou na ocasião, até porque «quem não se sente, não é filho de boa gente». Sentindo-se atingido na honra dos seus egrégios antepassados por algumas imprecisões e passagens, o dr. Ruy Feijó saiu a terreiro a fim de «defender a memória de meus avós», escudado «em antigos documentos e na tradição de família». Enquanto garatuja a resposta vamos espreitar por cima da ombreira, a fim de tomar conhecimento das judiciosas questões levantadas por este minhoto, passando ao lado de algumas questões colaterais. Venha comigo, caro leitor, que a jornada não é delongas. Primeiro, descrê do perfil com que o autor pinta a figura do mestre-de-campo Plácido da Cunha de Antas e Azevedo, de seguida, esgrima contra a versão «menos verdadeira» do romance, onde se afirma não haver descendência do matrimónio lavrado entre o dr. Fernando Luís de Antas de Mendonça e Azevedo e a morgada D. Joana Angélica Marinho do Amaral. Todos os genealogistas sabem de ciência certa, como sabia o dr. Ruy Feijó, que esse casamento garantiu a linhagem da Casa do Amparo, facto que Aquilino desconhecia. O que não teria, de outro modo, importância de maior num romance, não fora o autor desejar e asseverar que estava a rabiscar uma crónica histórica baseada em factos reais. Mas o cerne da questão, que fê-lo saltar lesto em «veemente protesto», tal como um D. Quixote, foi a memória e a conduta imputada àquela senhora galega, por sinal sua bisavó, de seu nome D. Maria do Carmo Josefa Montenegro Sottomayor y Carantonha Ovando de Medina ou, mais simplesmente, D. Maria do Carmo Carantonha de Montenegro y Medina, filha dum D. Telmo de Montenegro, oriundo da nobreza de Tui. A especiosa senhora estava internada, à boa moda da época, num convento de Pontevedra, onde recebia prendada educação para meninas aristocráticas, quando o sargento-mor Luís António de Antas de Mendonça de Menezes da Cunha e Azevedo, 9.º Senhor da Casa do Amparo e emproado como fidalgo dos quatro costados, viúvo e libidinoso, num repente, viu-a, apaixonou-se e, arrebatado de delírio amoroso, raptou-a das grades do mosteiro. Ei-lo a mata-cavalos em direitura a Portugal, não fosse arrepanhado pela cáfila dos sacripantas do ofendido progenitor, o tal D. Telmo. O velho nobre galego, trespassado de ideias ruins, logo recomposto da mofina que se abatera sobre o seu honroso nome, veio na peugada dos fugitivos, aqui d?El-Rei e de Ceca em Meca, quando arribou a Romarigães, retiro de felizardos, estava a malfeitoria reparada, porquanto encontrou o casal legitimado por valido matrimónio, em cuja alcofa nasceriam, depois, seis rebentos. Já não vinha, daí, mal ao mundo, todavia nas coisas do amor nada é inverosímil. Mas Aquilino, nanja!, não senhora, a história é outra, e como quem conta um conto, acrescenta um ponto, vá de dizer que a senhora era «batida do mundo», mantida amante dum padre de Mozelos para riba de dez anos, e em Romarigães, vivia afinal em conúbio marginal com o morgado, os filhos expostos na roda do convento das freiras franciscanas de Braga e outras lérias. Sem querer tomar partido, a não ser pela verdade histórica, tenho aqui em meu poder os assentos de baptismos do segundo e terceiro rebento, D. Antónia Maria de S. Fernando, nascida em Romarigães em 1803, e de D. António Telmo, nato em Santa Maria da Silva, corria o ano de 1806, nos quais posso constatar que os nascimentos são legítimos e limpinhos, sem peias de bastardia, nem abandono na roda dos expostos, a contrariar fantasia romanceada. Aquilino garante que D. António Telmo de Menezes Montenegro, o filho da fidalga galega, foi doidivanas por saias alheias e esbanjador de duas fortunas enquanto o diabo esfrega um olho, quando a realidade é distinta, pois foi «pecados que não cometeu». A casaca de marialva, «um autêntico D. Juan», assenta ao sargento-mor Luís António de Antas de Mendonça de Menezes da Cunha e Azevedo, pai do sobredito D. António Telmo, esse sim, um povoador daquele sertão, porquanto na Casa do Amparo, a par dos legítimos, criou e ocupou pelo menos «oito bastardos (...), em vários serviços da casa». A fortuna advinda de diversos morgadios foi devastada e consumida por outro D. António Telmo de Menezes Montenegro, filho daquele primeiro D. António Telmo e neto do sargento-mor Luís António de Antas de Mendonça de Menezes da Cunha e Azevedo e de D. Maria do Carmo Montenegro, o qual ainda chegou a ser 11.º Senhor da Casa do Amparo. Mas, além de «péssimo administrador», foi desenfreado estouvado como o avô, selando, assim, de modo nefasto o trágico destino do solar, rematado por via judicial em execução pública pelo conselheiro Miguel Dantas, no ano da graça de 1891. Amargo fim duma distinta casa, após três séculos de permanência e ligação na mesma família, passada de pai para filhos, tangia tamanho luzimento nos tempos áureos. Descuidoso e exaustinado até imitou o avô, ao raptar uma prima na véspera do casamento dela com outro, e depois de casados foram «dois infelizes que nunca se entenderam». Parece que foi fero na pujança dos anos, cujo estrepitoso eco das façanhas durou décadas a cair no esquecimento. Não sei se alquebrado por muita idade ou carcomido de desgosto, o dr. Ruy de Menezes Feijó faleceu a 16 de Junho de 1958, após publicar em Dezembro de 1957 uma separata da sua réplica, com o conciso título de ?Carta Aberta a Aquilino Ribeiro?, deixando o seu mais sentido lamento sobre A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES: «como romance é muito interessante e está muito bem escrito, como crónica deixa muito a desejar» [24-07-2007 - 16:34] [Jofre de Lima Monteiro Alves]
     
 
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