Por Paulo Roberto Gaefke Deixe-se levar pelo otimismo, pela certeza de dias melhores, e não se espante se conquistar algo novo, nem fique com cara de bobo diante da vitória.
Os otimistas seguem conquistando até dormindo, é um código de honra do Universo: "tudo conspira a favor dos que confiam", por isso, segue trabalhando, ainda que em busca de um nnovo trabalho, ame muito, segue amando, ainda que em busca de um novo amor. tenha paciência com as suas faltas, para poder desculpar as dos outros, perdoe-se para seguir perdoando.
Só não deixe de sorrir, não se deixe contaminar pelos pessimistas, nem seja você o que lcarrega a notícia ruim. Descarte as más notícias, observe o campo, onde o trigo cresce mesmo misturado ao joio, sabe que lá na frente, a foice vai cortar o que não presta, e ele vai reinar absoluto, ainda que seja para ir para um moinho, mas é assim, com o peso dessa dor, que se faz o milagre do pão.
Você é o maior milagre de Deus, ainda que esteja no moinho, sofrendo dores, você está sendo refinado, purificado, crescendo e melhorando a cada dia, pão da paz, pão da vida que habita em você. Não deixe de acreditar, sorrir e seguir adiante, o melhor está apenas por começar...
Julho de 1957. Aquilino publicara A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES, o
«teatro de virtudes e de algumas malfeitorias», tal como definia este
romance histórico. A unanimidade foi quase total, era no dizer dos
entendidos, um volume excepcional, obra-prima do seu génio de prosa.
Salvo um pequeno sector de recalcitrantes, para quem o mestre não
dispunha «de sólidos poderes de captação da diversidade da vida
humana», somente uma voz magoada ecoou na ocasião, até porque «quem não
se sente, não é filho de boa gente». Sentindo-se atingido na honra dos
seus egrégios antepassados por algumas imprecisões e passagens, o dr.
Ruy Feijó saiu a terreiro a fim de «defender a memória de meus avós»,
escudado «em antigos documentos e na tradição de família». Enquanto
garatuja a resposta vamos espreitar por cima da ombreira, a fim de
tomar conhecimento das judiciosas questões levantadas por este minhoto,
passando ao lado de algumas questões colaterais. Venha comigo, caro
leitor, que a jornada não é delongas. Primeiro, descrê do perfil com
que o autor pinta a figura do mestre-de-campo Plácido da Cunha de Antas
e Azevedo, de seguida, esgrima contra a versão «menos verdadeira» do
romance, onde se afirma não haver descendência do matrimónio lavrado
entre o dr. Fernando Luís de Antas de Mendonça e Azevedo e a morgada D.
Joana Angélica Marinho do Amaral. Todos os genealogistas sabem de
ciência certa, como sabia o dr. Ruy Feijó, que esse casamento garantiu
a linhagem da Casa do Amparo, facto que Aquilino desconhecia. O que não
teria, de outro modo, importância de maior num romance, não fora o
autor desejar e asseverar que estava a rabiscar uma crónica histórica
baseada em factos reais. Mas o cerne da questão, que fê-lo saltar lesto
em «veemente protesto», tal como um D. Quixote, foi a memória e a
conduta imputada àquela senhora galega, por sinal sua bisavó, de seu
nome D. Maria do Carmo Josefa Montenegro Sottomayor y Carantonha Ovando
de Medina ou, mais simplesmente, D. Maria do Carmo Carantonha de
Montenegro y Medina, filha dum D. Telmo de Montenegro, oriundo da
nobreza de Tui. A especiosa senhora estava internada, à boa moda da
época, num convento de Pontevedra, onde recebia prendada educação para
meninas aristocráticas, quando o sargento-mor Luís António de Antas de
Mendonça de Menezes da Cunha e Azevedo, 9.º Senhor da Casa do Amparo e
emproado como fidalgo dos quatro costados, viúvo e libidinoso, num
repente, viu-a, apaixonou-se e, arrebatado de delírio amoroso, raptou-a
das grades do mosteiro. Ei-lo a mata-cavalos em direitura a Portugal,
não fosse arrepanhado pela cáfila dos sacripantas do ofendido
progenitor, o tal D. Telmo. O velho nobre galego, trespassado de ideias
ruins, logo recomposto da mofina que se abatera sobre o seu honroso
nome, veio na peugada dos fugitivos, aqui d?El-Rei e de Ceca em Meca,
quando arribou a Romarigães, retiro de felizardos, estava a malfeitoria
reparada, porquanto encontrou o casal legitimado por valido matrimónio,
em cuja alcofa nasceriam, depois, seis rebentos. Já não vinha, daí, mal
ao mundo, todavia nas coisas do amor nada é inverosímil. Mas Aquilino,
nanja!, não senhora, a história é outra, e como quem conta um conto,
acrescenta um ponto, vá de dizer que a senhora era «batida do mundo»,
mantida amante dum padre de Mozelos para riba de dez anos, e em
Romarigães, vivia afinal em conúbio marginal com o morgado, os filhos
expostos na roda do convento das freiras franciscanas de Braga e outras
lérias. Sem querer tomar partido, a não ser pela verdade histórica,
tenho aqui em meu poder os assentos de baptismos do segundo e terceiro
rebento, D. Antónia Maria de S. Fernando, nascida em Romarigães em
1803, e de D. António Telmo, nato em Santa Maria da Silva, corria o ano
de 1806, nos quais posso constatar que os nascimentos são legítimos e
limpinhos, sem peias de bastardia, nem abandono na roda dos expostos, a
contrariar fantasia romanceada. Aquilino garante que D. António Telmo
de Menezes Montenegro, o filho da fidalga galega, foi doidivanas por
saias alheias e esbanjador de duas fortunas enquanto o diabo esfrega um
olho, quando a realidade é distinta, pois foi «pecados que não
cometeu». A casaca de marialva, «um autêntico D. Juan», assenta ao
sargento-mor Luís António de Antas de Mendonça de Menezes da Cunha e
Azevedo, pai do sobredito D. António Telmo, esse sim, um povoador
daquele sertão, porquanto na Casa do Amparo, a par dos legítimos, criou
e ocupou pelo menos «oito bastardos (...), em vários serviços da casa».
A fortuna advinda de diversos morgadios foi devastada e consumida por
outro D. António Telmo de Menezes Montenegro, filho daquele primeiro D.
António Telmo e neto do sargento-mor Luís António de Antas de Mendonça
de Menezes da Cunha e Azevedo e de D. Maria do Carmo Montenegro, o qual
ainda chegou a ser 11.º Senhor da Casa do Amparo. Mas, além de «péssimo
administrador», foi desenfreado estouvado como o avô, selando, assim,
de modo nefasto o trágico destino do solar, rematado por via judicial
em execução pública pelo conselheiro Miguel Dantas, no ano da graça de
1891. Amargo fim duma distinta casa, após três séculos de permanência e
ligação na mesma família, passada de pai para filhos, tangia tamanho
luzimento nos tempos áureos. Descuidoso e exaustinado até imitou o avô,
ao raptar uma prima na véspera do casamento dela com outro, e depois de
casados foram «dois infelizes que nunca se entenderam». Parece que foi
fero na pujança dos anos, cujo estrepitoso eco das façanhas durou
décadas a cair no esquecimento. Não sei se alquebrado por muita idade
ou carcomido de desgosto, o dr. Ruy de Menezes Feijó faleceu a 16 de
Junho de 1958, após publicar em Dezembro de 1957 uma separata da sua
réplica, com o conciso título de ?Carta Aberta a Aquilino Ribeiro?,
deixando o seu mais sentido lamento sobre A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES:
«como romance é muito interessante e está muito bem escrito, como
crónica deixa muito a desejar» [24-07-2007 - 16:34] [Jofre de Lima
Monteiro Alves]